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Inglês apaixonado por São Miguel constrói “tendas e cabanas” para desenvolver o ecoturismo na ilha



John Shenton é natural de Inglaterra, onde já não vive desde os 25 anos, tendo estudado arquitectura em Birmingham e feito pós-graduação em Paris, em Planeamento Urbano. Trabalhou no Médio Oriente, em África e em vários países europeus, principalmente, em projectos de grandes dimensões, como aeroportos ou resorts. Hoje, instalado na freguesia da Ribeira das Tainhas, em Vila Franca do Campo, trabalha num projecto que visa promover negócios de ecoturismo e criar uma rede de resorts construídos rapidamente e de sustentabilidade ecológica, económica e social. O que traz um inglês aos Açores, após vários anos no Médio Oriente, e o faz ficar por cá? John Shenton – Vim pela primeira vez aos Açores, à ilha de São Miguel, há quatro anos, com alguns amigos do Médio Oriente para fazer mergulho. No dia em que cheguei, o barco em que íamos fazer mergulho afundou no Oceano e acabamos por não poder mergulhar. Enquanto os meus amigos passaram as férias a discutir, a tentar receber o dinheiro de volta, montei-me numa moto e fui dar uma volta pela ilha e apaixonei-me pelos Açores. No segundo dia, vi que esta propriedade estava no mercado e no espaço de três dias decidi voltar e viver cá, porque andei à volta do mundo e, finalmente, encontrei o local onde queria viver. O que fazia antes decidir viver na ilha? Passei muitos anos a trabalhar como arquitecto no Médio Oriente, viajei pelo mundo, estive em 60 ou 70 países, e nunca encontrei um lugar onde me sentisse tão confortável como me sinto aqui. Então comprei a habitação, voltei para o Médio Oriente onde estive a trabalhar mais 2 ou 3 anos. Após instalar-se na ilha, o que se seguiu? Apercebi-me que havia uma oportunidade de ajudar a desenvolver o turismo na ilha de uma forma correcta. Vi o início da liberalização do espaço aéreo, a entrada das companhias “low cost”, o grande número de pessoas que começaram a vir para a ilha e apercebi-me do facto de a ilha não estar preparada para lidar com toda esta gente. Pensei que, em vez de ficar parado a observar a construção de hotéis que não seriam adequados para o turismo, deveria tentar fazer algo sustentável dos pontos de vista ecológico e social, ao trazer o turismo de baixo custo e de pequena escala a onde os rendimentos e geração de riqueza são necessários, ou seja, em todas as partes da ilha que não Ponta Delgada.

De momento, todos os turistas gastam o seu dinheiro em Ponta Delgada e praticamente todo o benefício do Turismo vai para Ponta Delgada e não chega ao resto da ilha. Por exemplo, saem dos hotéis na sua grande maioria localizados em Ponta Delgada, vão aos pontos de interesse na ilha, tiram uma “selfie” e voltam para Ponta Delgada para almoçar ou jantar. Para fazer com os turistas fiquem nas outras zonas e contribuam para a economia destes locais, há que desenvolver turismo acessível do ponto de vista económico e tentar colocá-lo nas mãos das pessoas que precisam de beneficiar disto. A montagem do primeiro “Ecopod”… Construímos aqui, na Ribeira das Tainhas, a primeira cabana “Ecopod” para mostrar o que pode ser feito, com materiais 100 por cento de origem local ou reciclados, praticamente tudo feito com criptoméria. A ideia é usar técnicas que sejam amigas do ambiente.Os trabalhadores também são locais, a maioria estavam desempregados, não tinham o que fazer e assim podem ocupar-se e aprender novas capacidades. Tivemos que construir um “Ecopod” para que as pessoas pudessem compreender o que se estava a tentar fazer. Os materiais mais utilizados são a criptoméria, as “cabanas” são suportadas por um pilar base feito através da reutilização dos postes de electricidade, apoiados por outros quatro ou cinco postes. A primeira cabana ficou concluída em Junho do ano passado, tendo demorado 1 mês a construir, a segunda demorou 2 meses. Construiu-se no terreno abaixo da habitação onde vivo, conseguido pela minha companheira Sónia Arruda, através de arrendamento com uma duração de 15 anos, porque a intenção não é desenvolver uma propriedade mas sim aproveitar terrenos dispersos pela ilha, que não estejam a ser utilizados no máximo das suas potencialidades, e utilizá-los para Turismo. Porque ainda não abriu ao público? Construiu-se o primeiro “Ecopod”, toda a gente gostou e as reações têm sido sempre positivas, mas levantou-se o problema de estar situado mesmo ao lado de um acesso pedestre à praia, que as entidades responsáveis consideram ser um ribeiro e devido à proximidade dizem-nos ser impossível desenvolver este terreno para o Turismo. Precisamos de uma licença de alojamento local para abrirmos a Quinta Lírica oficialmente, mas estamos a fazer os possíveis para abrir em Maio ou Junho deste ano. Então, encontramos 2 ou 3 outros locais pertencentes a amigos ou espaços públicos e estamos a implementar 2 projectos na Caloura, um na Relva e outro em Vila Franca do Campo. Também construímos as cabanas para mostrar que são como uma espécie de mobiliário IKEA. Quem compra uma cabana, monta-a em 2 dias e pode desmontá-la. Trata-se de um edífico temporário, aquilo que chamados de arquitectura “pop-up”. Assim, qualquer pessoa que tenha um terreno, desde que consiga a devida permissão, pode, no espaço de 3 ou 4 meses, abrir um espaço do género para Turismo. As oportunidades são ilimitadas. 


Por exemplo, podem começar no quintal de uma tia, com um espaço anunciado no “airbnb” (um serviço online comunitário para as pessoas anunciarem, descobrirem e reservarem acomodações e meios de hospedagem) e começarem a obter rendimentos, ou utilizar um terreno que seria para cultivo, numa localização bonita e montar aí. É completamente sustentável, não se utiliza cimento, assenta pilar feito através da reutilização de postes de electricidade feitos de madeira. Não prejudica o solo, quando se sair do locar e tirar a infraestrura, dez ou 15 anos depois, restará simplesmente um belo jardim, o que é sempre um belo jardim. Podemos criar turismo numa vila em que não existia, criar emprego e dar a conhecer novas capacidades aos locais. É um projecto e uma abordagem turística muito responsável do ponto de vista social. Há resistência ao que é novidade ou diferente? O primeiro problema é económico. Os “Ecopods” não são caros, mas parecem sê-lo para a população, porque na ilha não se recebem os grandes salários que se auferem em alguns países europeus e as pessoas têm habitações bonitas e, por isso, consideram as “cabanas” caras. A próxima iniciativa é fazer com que sejam acessíveis à bolsa das pessoas e, por isso, temos trabalhado no sentido de construir “ecopods” que sejam tendas “Glamping”, ou seja campismo com glamour. Na Europa, uma das indústrias com maior crescimento tem sido o “Glamping”, no qual as pessoas dormem em camas e em tendas luxuosas e ao mesmo tempo podem estar ao ar livre e vislumbrar a natureza. É algo perfeito para os Açores, porque os turistas que cá vêm quere exactamente ar livre e natureza. A ideia é que as tendas “Glamping” sejam construídas como os Ecopods assentem naquela base de madeira, tenham espaço para arrumações, electricidade, musica, com capacidade para um casal, uma família ou 4 ou 5 “backpackers” e custa apenas alguns milhares de euros a construir. A beleza disto é que alguém pode comprar a tenda, montá-la, obter licença para alojamento local e começar a obter rendimentos. Uma ou duas temporadas depois, podem chamar-nos, tiramos a tenda, colocamos os painéis e obtêm uma “cabana”, e pagam apenas a diferença. O segundo problema prende-se com a burocracia. O “glamping” é compreendido e está implementado no continente, as autoridades providenciam licenças para campismo e caravanismo e criam uma excepção para edifício temporário. Nos Açores, não há ainda enquadramento para o “glamping”, não é reconhecido, também não existe nada que se pode chamar de edifício temporário. Por isso, toda a gente gosta do que vê neste projecto, mas não sabem como lidar burocraticamente. Fizemos alguns pedidos de licença, cujas respostas foram algo desapontantes. Sem estas licenças também não podemos candidatar-nos a qualquer tipo de apoio financeiro. Quanto já foi investido neste projecto? Todo o financiamento do projecto tem sido efectuado através de fundos próprios, começamos agora a encontrar aquilo que se chama de pioneiros na adopção de algo inovador, duas pessoas que têm dinheiro e que assumiram o compromisso de construir as cabanas. É disto que necessitamos, porque só assim as pessoas vêm as construções e percebem que é uma excelente ideia para a ilha. Estamos no final de 2 anos de trabalho e na semana passada começamos a construir a primeira cabana para estes pioneiros e, literalmente, foi uma salvação para nós, porque pensamos que, nesta altura, já teríamos o nosso espaço aberto e um negócio a funcionar. Provavelmente, já terei investido entre 200 e 250 mil euros neste projecto, porque quando começamos era um terreno com bananas e hoje vê-se um belo jardim, com uma piscina e um jacuzzi, é um verdadeiro resort para férias. É uma excelente demonstração daquilo que é possível fazer em Turismo, mas não conseguimos obter rendimentos ainda, devido à burocracia. Mas a intenção é ir ainda mais longe… Quando o Turismo ultrapassar a fase de “o que fazemos com isso?”, quando existirem 3 ou 4 candidaturas a projectos deste tipo e virem que traz dinheiro e que os turistas estão satisfeitos, é bom para o ambiente, para as comunidades locais e para a sociedade, será certamente um sucesso, irá alavancar e teremos uma “rede” de esoterismo. 


Queremos construir uma rede na ilha e, mais tarde, expandi-la, de modo a que o turista ao chegar ao aeroporto não fique numa fila a aguardar para alugar um carro e passe as férias a ir, por exemplo, no Verão, à Lagoa do Fogo preso no trânsito e sem lugar para estacionar. Pretendemos que um autocarro eléctrico vá buscar o turista, que através de uma aplicação móvel com o mapa da ilha pode ver que “cabanas” estão disponíveis e selecionar para onde ir num determinado dia. Depois, que os turistas tenham a possibilidade de utilizar bicicletas eléctricas, pedir indicações sobre restaurantes locais ou simplesmente pedir uma pizza. Uma vez funcional em São Miguel, temos aqui o laboratório perfeito para testar, podemos exportar este projecto de ecoturismo para outras ilhas e para o continente. Uma empresa que se chama TEDA (Tenting and Ecotourism Development Azores), mas passará a chamar-se TENDA… No início, ao vir do Médio Oriente, trouxe um árabe abastado que adorou a ilha e prometeu investir no meu projecto. Contudo, 6 meses depois mudou de ideias e tivemos de dissolver a companhia inicial que se chamava TADA - Tourism and Agribusiness Development Company of The Azores. Estabeleci então uma nova a empresa, a Tenting and Ecotourism Development Azores – TEDA, com um sócio, o meu bom amigo Emanuel Ponte. Agora pretendemos mudar a denominação para TENDA porque faz mais sentido e vai mais ao encontro do que estamos a criar. A TENDA será a empresa que gere a rede, traz os turistas e deixa-os à porta dos vários locais com cabanas ou tendas, como a Quinta Lírica. Alguém pode chegar a nós e dizer: aqui está o terreno, arranja-me a licença, constrói-me as cabanas e quero abrir ao público em 6 meses, o que é exequível. Parece complicado à primeira vista, mas torna-se simples e a ideia é que eu guie as pessoas através do processo de construção das cabanas.

Fonte: Correios dos Açores

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