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Naufrágios nos Mares dos Açores podem Virar Atracção Turística !




Um projecto inédito de cartografia e modelação subaquática procura fornecer aos mergulhadores que visitam a Região Autónoma dos Açores uma ferramenta única para coordenar as actividades turísticas sustentáveis entre o vasto espólio de destroços subaquáticos do arquipélago. Pela primeira vez, há mapas dos labirintos submersos.

A escuridão da noite era quase total naquele dia de Setembro de 1901 em que um comandante, enganado por uma 
 avaria no sistema de navegação do seu navio e pela ausência de faróis em terra – os faróis começavam então a ser instalados nos Açores –, encaminhou-se traiçoeiramente na direcção da costa da ilha do Pico, próximo da vila da Madalena. Ali, o navio de 97 metros de comprimento embateu nas rochas e naufragou.

A cerca de nove metros de profundidade, o destroço da barca francesa Caroline, construída nos estaleiros de La Loire em Nantes em 1895, aparelhada com quatro mastros, é bem conhecido dos mergulhadores locais. O Caroline pertencia a uma das maiores companhias de navegação do seu tempo e fazia viagens regulares entre o Chile e a Europa, transportando pessoas e bens. Entre os produtos que carregava, destacava-se o mais valioso – o famoso nitrato do Chile, o fertilizante ainda evocado em muitas aldeias do interior de Portugal. Nesta ocasião, navio e carga nunca  chegaram ao destino.

A perda do Caroline faz parte da história trágico-marítima de um arquipélago onde, com base na carta arqueológica, repousam mais de setecentos navios que representam pelo menos cinco séculos de navegação. Muitos ainda são evocados na tradição oral insular e as peripécias são narradas de geração em geração, sobretudo nos casos trágicos em que o respectivo navio arrastou para o fundo membros da tripulação. Muitas viagens foram abruptamente interrompidas nestas águas, deixando aqui uma marca profunda e vasto território de pesquisa para os arqueólogos subaquáticos.

O picaroto José Bettencourt é investigador do Centro de História d’Aquém e d’Além-Mar, das Universidades Nova de Lisboa e dos Açores, e trabalha em parceria com o Observatório do Mar dos Açores. Nos últimos anos, a sua equipa de investigação tem desenvolvido um projecto de recuperação de alguns destes naufrágios congelados no tempo, de forma a mapear – de forma acessível, completa e rigorosa – a zona do destroço e, ao mesmo tempo, obter no processo informação inédita sobre técnicas de construção, materiais utilizados e cargas transportadas. Ao contrário do que se poderia imaginar, os membros do projecto passam pelo menos tanto tempo à superfície como debaixo de água, pois a investigação recorre a modernas técnicas de fotogrametria e visualização tridimensional.



Financiado pela Associação de Turismo dos Açores, o projecto desenvolve, neste momento, o mapeamento de três destroços: o do Caroline na ilha do Pico, o do Main no Faial e o do Lidador na Terceira. “O objectivo é potenciar a visitação por parte dos operadores de mergulho locais, dotando-os de suportes interpretativos que ajudem os mergulhadores recreativos a compreender e conservar os achados que ganham agora uma nova vida”, explica José Bettencourt.
Foram escolhidos destroços consolidados, razoavelmente estudados e acessíveis a mergulhos comerciais, na expectativa de desenvolver, como noutras regiões do globo, um produto turístico sustentável e inovador. Numa parceria entre o Turismo dos Açores e a Direcção Regional da Cultura, foi igualmente produzido um guia do património cultural subaquático.

“Quando mapeamos um navio, agrupamos as centenas de fotografias recolhidas, que compõem o mosaico dos destroços no fundo do mar e estamos a abrir uma nova janela de conhecimento”, diz José Bettencourt. “É como se embarcássemos numa cápsula do tempo e, de repente, regressássemos aos momentos em que o navio colapsou, passo a passo. A observação de um navio mapeado permite observar todo o contexto do sítio arqueológico.”

Foi isso que sucedeu com o vapor inglês Main, de 101 metros de comprimento, construído em 1868 pela Caird & Company Greenock, que naufragou na ilha do Faial em 1892. A família Dabney, pioneira da fotografia naquela ilha do Grupo Central, imortalizou o momento numa imagem que regista o navio em chamas, perdido na baía de Porto Pim com uma carga de algodão e gado proveniente da cidade americana de Nova Orleães e destinada a Liverpool. O incêndio começou no sector de alimentação do gado e sentenciou esta embarcação a repousar a cerca de cinco metros de profundidade.

“Apesar de ser conhecido há muito tempo pela população local, sabíamos pouco sobre os destroços deste naufrágio”, acrescenta José Bettencourt. “O mapeamento revelou uma dimensão insuspeita. Os restos do Main estendem-
-se por mais de uma centena de metros, incluindo a popa, parte do costado de estibordo e a proa. É impressionante porque a fotografia compósita agora construída ilustra um esqueleto despido da pele, onde domina o escovém, por onde passava a amarra de uma das âncoras.” Em torno desta estrutura adivinha-se o alinhamento dos vaus do convés, que sugerem que o outro bordo se encontra enterrado. O trabalho revelou também que o Main abriga uma extensa biodiversidade, funcionando como um verdadeiro recife artificial, cuja colonização pode ser determinada como um relógio natural, pois existe uma data precisa para o momento em que chegou ao fundo.



A técnica de mapeamento de um navio consiste na captação de centenas de fotografias por um operador pairando lentamente sobre a área dos destroços, em varrimento de toda a zona, complementado com a colocação de pontos que permitem depois executar medições exactas susceptíveis de revelar a extensão de todo o destroço.

Os métodos de fotogrametria desenvolveram-se significativamente nos últimos anos e tornaram-se acessíveis a aplicações industriais ou científicas. Correspondem a uma cobertura sistemática do objecto a registar em fotografia com grande sobreposição, idealmente de 80% entre cada fotografia. Incluem igualmente o levantamento topográfico de pontos de referência que permitem orientar e georreferenciar os modelos. “Mas continuamos a utilizar metodologias tradicionais, pois a tecnologia ainda não substituiu o homem”, adverte o responsável pelo projecto.

A câmara vai registando os pormenores que escapam ao olho humano e devolve informação detalhada, que permite depois compreender e interpretar o que resta do navio através do processamento e tratamento informáticos dos dados. “O processamento dos dados permite gerar vários documentos, ortofotografia, modelos digitais do terreno, animações ou vídeo do sítio arqueológico – tudo em alta resolução”, diz Bettencourt.

O naufrágio do vapor brasileiro Lidador, em Fevereiro de 1878, a sete metros de profundidade na baía de Angra do Heroísmo (hoje classificada como Parque Arqueológico) ocorreu numa noite de forte tempestade e constitui, para lá da tragédia náutica, outro excelente exemplo da utilização desta técnica.
Construído em Londres em 1873, com 78,67 metros de comprimento e equipado com dois modernos motores a vapor, era mais um navio de ferro que fazia neste período a transição da marinha mercante à vela para a propulsão exclusivamente a motor. Efectuava carreiras regulares entre o Brasil, Portugal continental, as ilhas dos Açores e Madeira e desempenhou um papel relevante nos movimentos migratórios para o Brasil através da Companhia Brasileira de Navegação Transatlântica, como se constata pelo vasto acervo de anúncios de recrutamento publicados na imprensa portuguesa da época.

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