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Açores produzem leite “capaz de melhorar a saúde e de prevenir algumas doenças”



Cidália Ponte é a nutricionista que mais se tem envolvido nos estudos que decorrem nos Açores sobre as qualidades intrínsecas do leite açoriano e não tem dúvidas de que, quanto mais as vacas estiverem na pastagem e se alimentarem de erva verde (como acontece na Região), mais o leite produzido na Região é único, com características que fazem bem à saúde. Cidália Ponte tem seguido de perto, em São Miguel, o estudo para a criação do leite rico em iodo desenvolvido, em cooperação, pela Universidade dos Açores e a Unileite, e está convencida que será “muito interessante a Região poder produzir um leite naturalmente enriquecido em iodo”. A nutricionista critica “a corrente fundamentalista ‘anti-leite’ que tem surgido com uma “argumentação completamente enganosa”. O facto é que estas campanhas consideradas “difamatórias” podem estar na origem da diminuição do consumo de leite em Portugal.

Correio dos Açores - Os consumidores estão a ser enganados por campanhas difamatórias do leite?
Cidália Ponte (Nutricionista) - Eu não diria por campanhas difamatórias. Acho que existe é uma corrente fundamentalista “anti-leite” com uma argumentação completamente enganosa.
De facto, o leite tem malefícios para alguns subgrupos populacionais mas para a população em geral continua a ter mais benefícios do que malefícios. As campanhas de marketing, na sua origem, não dizem toda a informação quer seja por interesses económicos, por convicções ou por puro desconhecimento de toda a verdade.
Ora vejamos: para se falar de um produto, temos de o conhecer e nem toda a gente que fala do leite o conhece. Temos de entender que o leite não pode ser pensado como um elemento e dizer só a sua composição nutricional, mas temos de o entender como alimento e da forma como o organismo o absorve ou o utiliza. Por exemplo, se consultarmos tabelas de valores nutricionais e compararmos o teor de cálcio do leite e da couve, vemos que 100ml de leite possuem o mesmo cálcio que aproximadamente 175g de couve mas o cálcio da couve não é absorvido na mesma percentagem que o cálcio do leite e é isto que não é dito. A batata-doce, outro exemplo, é um óptimo alimento e que também é rica em cálcio. Só que, para substituir um copo de leite, obriga a comer 1,6 quilos de batata, e do espinafre cerca de 1,3 quilos. Ora..., qualquer pessoa consegue beber um copo de leite por dia mas já comer 1,3 quilos de espinafres ou 1,6 quilos de couve por dia….
As pessoas lêem a informação que encontram, em sítios fidedignos ou não, e falam ou escrevem o que lhes interessa para defenderem as suas convicções, muitas vezes omitindo a outra parte da verdade que, eventualmente, deitaria por terra esses mesmos interesses.

Quem difunde estas campanhas procura vender outros produtos que substituem o leite? Pode explicar?
Muito provavelmente, na origem destas campanhas, sim. Mas, como hoje todos podem opinar e divulgar essas opiniões nas mais diversas redes sociais que são lidas e partilhadas por todos, deparamo-nos, muitas vezes, com pessoas, sem qualquer qualificação nesta área, a fazerem afirmações e a divulgá-las, como se fossem responsáveis por um estudo com evidência científica num grau que lhes permite, sem qualquer equivoco, fazer essas afirmações. Temos de conhecer a origem daquilo que afirmamos.
Certamente que quem produz um produto pretende vendê-lo. Quem trabalha para ele obriga-se a divulgá-lo e a promove-lo. O consumidor tem de ser informado, com rigor científico, acerca das qualidades e/ou malefícios desses mesmos produtos e para isso existem regulamentos leis e fiscalizações que tem a obrigação de o divulgar/fazer cumprir.

Além das qualidades que são comuns no leite, pode considerar-se que o leite dos Açores tem particularidades específicas que o levam a ser único?
Tudo indica que sim, pois existem estudos que evidenciam que um leite produzido a partir de animais alimentados à base de pastagens, como acontece nos Açores, apresentam uma composição em ácidos gordos mais saudáveis. Este leite apresenta valores de ácido linoleico conjugado (CLA) mais elevados do que aqueles oriundos de animais que se alimentam, essencialmente, de rações.
Vários estudos têm demonstrado que o CLA confere vários benefícios para a saúde nomeadamente na prevenção da obesidade, da diabetes tipo 2 e do cancro, que melhora a fixação de cálcio nos ossos, diminui a quantidade de LDL-colesterol (o mau colesterol) e aumenta a quantidade do HDL-colesterol (o bom colesterol) diminuindo assim o risco de acidentes vasculares cerebrais e doenças cardíacas. Como se isto não bastasse, o CLA é capaz de inibir o mecanismo que leva o nosso corpo a acumular gordura e faz com que este use as nossas reservas de gordura como fonte de energia.
Assim, tudo indica, que nos Açores, como o gado é alimentado basicamente com pastagem, se produz leite capaz de melhorar a saúde e de prevenir algumas doenças.

Pode mesmo dizer-se que, pelo maneio único das vacas, e pela sua qualidade intrínseca, o leite dos Açores aproxima-se muito do que se pode considerar um leite biológico?
Não tenho dados suficientes para confirmar, sem qualquer dúvida, que sim. No entanto, sei que têm sido desenvolvidos todos os esforços para que assim seja e que cada vez mais esse é o objectivo de todos os envolvidos na produção do leite dos Açores. Espero que, muito rapidamente, se consiga atingir esse objectivo.

O leite açoriano, pelas suas características muito próprias, faz bem à saúde? Em que medida? Pode afirmar-se: “Beba leite pela sua saúde”?
Sim, todo o leite faz bem à saúde por ser uma boa fonte de proteínas e cálcio e a um bom preço. Cada copo de leite tem 300 miligramas de cálcio e é, facilmente, absorvido pelo intestino, mais do que qualquer vegetal. As necessidades médias do adulto rodam as 800 mg por dia (2 copos de leite por dia).
É claro que se esse leite tiver alguma característica adicional que o torne ainda melhor para a saúde poderá fazer a diferença do leite com a marca “Açores”.

Está em estudo o fabrico de leite com iodo nos Açores. Os primeiros estudos são muito favoráveis. Dado que há uma carência de iodo não só nas grávidas, como nos jovens e na população açoriana em geral, como considera esta possibilidade de se fabricar leite com iodo em São Miguel?
É verdade, esses estudos estão a decorrer, mas ainda não terminaram. Primeiro, é necessário saber qual a quantidade de iodo que possui o leite produzido na região e qual a quantidade de iodo que existe nas pastagens e só depois decidir se é necessário ou não suplementar e, eventualmente, qual a melhor estratégia para se produzir o chamado leite enriquecido em iodo. Acho que seria muito interessante a Região poder produzir um leite naturalmente enriquecido em iodo.

Tem algo a acrescentar que esclareça os leitores sobre a importância do leite na dieta alimentar?
Temos de ter muito cuidado com as “modas” e com o que se ouve ou lê. Para formar opinião temos de ouvir especialistas na área e procurar fontes de informação fidedignas antes de fazer qualquer afirmação.
Acho que posso afirmar que a qualidade de vida depende muito dos hábitos alimentares saudáveis. Temos de seguir as recomendações da Direcção Geral de Saúde que são as que correspondem à evidência científica mais actual. Ter hábitos alimentares com menos produtos industrializados e aditivos químicos e consumir alimentos mais saudáveis dados de presente pela “mãe” natureza, incluindo o consumo de leite de vaca, tudo com conta, peso e medida, e respeitar a individualidade bioquímica de cada um, na qual as pessoas toleram, de forma diferente, os mesmos alimentos.

Fonte: Correios dos Açores

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