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São Jorge – Atlântida reencontrada



Depois desta viagem, o ator Ricardo Trêpa passou a tratar por tu a fajã mais mágica dos Açores. Entre surfadas, passeatas e comezainas, descobrimos o essencial de São Jorge, a ilha que é o coração de um dos arquipélagos mais fabulosos do planeta. 

É com um copo de gin tónico na mão e com os ouvidos ocupados a tentar decifrar os mil e um idiomas que enchem a sala que começa esta viagem. Esta e tantas outras, ou não estivéssemos no Peter Café Sport, que, mais do que um café, é uma sala de visitas de velejadores que aqui chegam, e que daqui partem, de, e para, todo o mundo.

Com José Henrique, neto do fundador e atual proprietário do Peter, subimos ao primeiro andar do café, onde está o mais importante museu do mundo dedicado à arte do scrimshaw. “O ofício”, avança José Henrique, “consiste em gravar a tinta da china o marfim dos dentes e mandíbulas de baleia. De cachalote, mais propriamente falando, que é uma baleia de muitos recordes: é o maior mamífero com dentes que se conhece; tem o maior cérebro de todas as espécies vivas; é o maior carnívoro do planeta e detém o recorde de mergulho mais profundo entre os mamíferos, mais de dois mil metros de profundidade”. Ricardo apressa-se a rematar: “e foi o primeiro cetáceo a chegar ao grande ecrã na adaptação do clássico de Herman Melville: Moby Dick”. O ator, que entretanto deu de caras com um colossal dente de narval – ou unicórnio dos mares, como ele lhe chama –, diz que só tem pena de nunca ter visto um cachalote ao vivo e a cores. Outra preciosidade está emoldurada ao fundo, chama-se Neptuno na Horta e é uma fotografia tirada por José Henrique a 15 de fevereiro de 1986, o dia da “tempestade do século nos Açores”. “As ondas chegavam aos vinte metros e os ventos atingiram 250 quilómetros por hora. Fiz algumas fotos da tempestade e só algum tempo mais tarde, quando passei os diapositivos para o papel, é que um empregado aqui do café me fez reparar nesta foto na qual a rebentação das ondas contra o Monte da Guia tem a forma exacta da imagem que temos de Neptuno – o deus dos mares”.

Há neste lugar e neste homem histórias para encher um livro, mas o tempo é nosso inimigo. Com a promessa de um regresso para ir à cata do dito cachalote – e convém acrescentar que este arquipélago é um dos melhores sítios do mundo para os ver – subimos a bordo do catamaran Expresso do Triângulo e deixamos para trás a ilha do Faial para rumar a outro vértice do triângulo do grupo central: a ilha de São Jorge.



 O dragão gentil

“A viagem aos Açores foi esplêndida. Deve dar um livro interessante”, comunicava o jornalista e escritor Raul Brandão numa carta endereçada ao seu amigo e colega Teixeira de Pascoaes em 1924, depois de uma jornada pelos Açores. À ilha onde atracamos ainda há pouco, Brandão dedicou uma série de linhas no livro que acabou por sair com o título de As Ilhas Desconhecidas e é Joana Âmbar, mentora e anfitriã da pacata e acolhedora Quinta de São Pedro quem nos diz que foi ele que alcunhou São Jorge como a ilha do dragão por ser esguia e ter a forma de um grande bicho à tona de água mostrando “no focinho penedos aguçados como dentes”.

Joana faz também notar a esquizofrenia do clima por estas bandas: é que se ainda há uns minutos estávamos debaixo de nuvens carregadas de chuva, agora já temos raios de sol a queimarem-nos as faces. “Os açorianos dizem que aqui, num só dia, se encontram as quatro estações do ano”, comunica ela enquanto abre um mapa da ilha para nos indicar umas quantas visitas obrigatórias. “Já percebi que têm planos para ir à fajã de Santo Cristo, senão não tinham trazido as pranchas de surf. É sem dúvida um lugar muito especial de São Jorge, não só pelo surf, mas também pela lagoa; pelas fabulosas trilhas que é preciso fazer para lá chegar; pelas noites estreladas; pelo sossego esmagador; pela energia única. Mas há muito mais para ver e fazer por aqui. Estamos na ilha das trilhas e se quiserem pôr os pés na estrada vão ser recompensados com vistas incríveis: a do Pico da Esperança, o ponto mais alto da ilha é só uma de mil. As lindíssimas piscinas naturais de João Dias; a igreja barroca de Santa Bárbara; a pitoresca vila do Topo, onde chegaram os primeiros navegadores e a Ponta dos Rosais, sobre a qual não vou adiantar muito mais para não estragar a surpresa, são mais alguns lugares obrigatórios”.

Com o mapa debaixo do braço, cheio de cruzes, como um velhinho mapa do tesouro, vamos até ao restaurante Fornos de Lava confirmar a fama de um dos favoritos da ilha. Os simpáticos Alvarez, que gerem o restaurante familiar construído sobre uma eira e com vistas de perder a cabeça para o Pico e o Faial, sugerem-nos uma cataplana de cherne e lapas que faz uma bela parelha com o vinho branco crescido entre os muros de basalto do Pico. Antes do pitéu, saboreamos as lapas, os queijos com pimenta da terra e uma salada vinda diretamente da horta da casa, que é tão saborosa que pedimos mais quatro.



Caixa de surpresas

Mesmo que tivesse revelado mais quando nos falou da Ponta dos Rosais, Joana não nos podia ter preparado para este lugar. Chega-se aqui por uma trilha de terra batida que rasga a meio as pastagens. A estrada, ladeada por hortênsias e faias, desemboca numa pequena vila imponente, esmagadora e cinzenta, que está ao abandono. “Isto era uma pequena comunidade que vivia em regime autónomo até ao dia em que houve um grande terramoto e se abriram fendas profundas na escarpa”, diz-nos Pedro – campeão de judo, bodyboarder, uma das caras da empresa UrzelinaTur e nosso companheiro de estrada nestes dias. “Isto dá um cenário brutal”, diz Ricardo com os olhos postos no altivo farol desativado desde 1980.

Como pássaros, do alto de mais de 200 metros, miramos o ilhéu da Ponta dos Rosais e jogamos às escondidas entre as faias e incenseiros de metro e meio que separam a vila do abismo. Foi por causa desta encosta altiva que Raul Brandão, que baptizou todas as nove ilhas dos Açores segundo uma cor, chamou a esta “a castanha”. A propósito de Brandão, Ricardo lembra um dos papéis que mais exigiu de si – o de João em O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira, que é uma adaptação do texto para teatro de Brandão. “Não só tive de fazer um esforço hercúleo para me transformar num personagem muito negro, como tive de reaprender francês porque o filme é rodado em França e em francês. Mas isso faz parte do universo Oliveira: há sempre muito trabalho antes de chegar ao plateau”.

No regresso, fazemos uma paragem no miradouro das Sete Fontes e no parque florestal, que mais parece um bosque encantado. As criptomérias altíssimas com os troncos sarapintados de musgo oferecem uma merecida sombra a coelhos, veados, patos e, “quiçá, duendes”, atira Ricardo já contagiado pelo lado místico da ilha.

Voltamos à estrada que serpenteia montanha acima, montanha abaixo. Perdidos nestes “ésses”, descemos à Fajã do Ouvidor, onde o mar azul profundo se transforma em azul celeste quando se encontra com o basalto negro que é filho da lava cuspida em erupções pré-históricas. São Jorge é a ilha das Fajãs, explica Pedro, apressando-se a familiarizar-nos com o termo. “São terras planas e cultiváveis formadas, normalmente, por materiais que se acumulam na foz de uma ribeira e estão quase sempre assentes num banco de lava.” Em Cabo Verde, na Madeira e, claro está, nos Açores o termo fajã não é chinês, há-as um pouco por toda a Macaronésia, mas São Jorge bate recordes: “existem mais de 70”, assegura Pedro.

À nossa frente estão agora as piscinas naturais de João Dias, as mais bonitas da ilha. Hoje estão a ser castigadas por ondas altas, o que para Ricardo é um bom agoiro – está em pulgas para surfar na Fajã de Santo Cristo. Mas isso fica para amanhã. Hoje ainda queremos desbravar um pedaço do sul da ilha. Não sem antes atacarmos o farnel que a simpática Olga, da Quinta de São Pedro, nos preparou com tanto carinho e que inclui bolo caseiro e sanduíches de queijo da Ilha, uma delícia made in São Jorge. O travo picante do queijo adormece-nos a língua mas não o ânimo.

Seguimos sem demora para o sul, que não perde em beleza para o norte. Há mais fajãs à beira de águas translúcidas. Há mais piscinas naturais esculpidas na pedra. Há mais gente e mais terriolas alindadas com as suas igrejas aprumadas, como a Calheta ou a Urzelina e a sua torre, que foi a única coisa que escapou incólume a uma violenta erupção há umas décadas atrás.

Porque o que é bom merece segunda visita, reservamos o pôr do sol para voltar à Fajã do Ouvidor, onde já fumegam sobre a mesa do Amílcar umas amêijoas nascidas e criadas na lagoa da Fajã de Santo Cristo, o único lugar dos Açores onde estes bivalves se dão bem. Amílcar preparou-nos também uma morcela caseira de “comer rezando”, como dizem os brasileiros, e reservou-nos os melhores nacos de um veja e de um atum acabados de chegar da lota.




Mais do que perfeito

Do alto da serra do Topo à Fajã de Santo Cristo vão sete quilómetros. Podia ser uma estafa, mas não é. Porque quando a paisagem é ainda mais espetacular do que qualquer um dos cenários do Senhor dos Anéis, não há preguiçoso que resista ao desafio.

É de novo com a UrzelinaTur que nos lançamos nesta jornada. Pedro vai descer a trilha connosco e o seu pai, Victor, o cérebro da empresa, vai de moto 4 pelo caminho da Fajã dos Cubres, para nos aliviar do peso do farnel e das pranchas. O verde fere a vista de tão viçoso, o cheiro da terra e da vegetação entranha-se na pele. Não se ouve nada além do vento, do chilrear dos pássaros e dos nossos “uaus!”. O azul do mar lá ao fundo é, para nós, a terra prometida mas, até lá chegarmos, ainda esbarramos com pequenas ribeiras e quedas de água onde apetece mergulhar.

Uma curva, uma contracurva e ei-la: a Fajã de Santo Cristo, com a sua lagoa cristalina, o pináculo da igreja que recebe os peregrinos em setembro e as ondas que quebram perfiladas como soldados numa parada. Ricardo já está com bicho carpinteiro e acelera o passo para chegar à beira-mar, onde Victor, que é um dos surfistas mais calejados destas bandas, já tem o fato (que a partir de junho é perfeitamente dispensável) vestido. Ricardo não demora dois segundos a equipar-se e a atirar-se à água. As ondas estão com metro e meio e com a força de mil cavalos, tanto que a prancha de Ricardo, decorada com uma pintura bem explícita do resultado do encontro imediato do ator com o recife de coral das Maldivas, acaba partida ao meio. Ricardo, que trouxe uma prancha de reserva, volta à carga e enche a barriga de ondas. “Que privilégio surfar um spot desta categoria só com mais uma pessoa”, diz ele com um sorriso descomunal nos lábios.

Victor e Pedro mostram-nos os cantos da Fajã, que, “como tantas outras das mais recônditas de São Jorge, foi abandonada depois do terramoto de 1980. As pessoas saíram mas a Fajã foi considerada Reserva Natural pelo Governo dos Açores, em 1984, especialmente por causa da lagoa, que é o único local dos Açores onde crescem amêijoas. Abandonada por quem cá vivia em permanência, não foi esquecida pelos andarilhos, nem pelos surfistas, nem pelos peregrinos que todos os anos, em setembro, aqui fazem a sua homenagem ao Senhor Santo Cristo, que dá o nome oficial à fajã, que também é chamada de fajã da Caldeira por causa da lagoa”. Victor ainda incha mais de orgulho quando nos mostra a sua casa, uma de várias que nos últimos anos foram reconstruídas. Continua a não haver eletricidade pública, só por gerador, e o sistema de canalização não funciona na perfeição, mas a vida está a voltar aos poucos e poucos. “Até havaianos e australianos, tipos habituados a ondas fantásticas e a paisagens maravilhosas, têm casa aqui. Isto é um mundo à parte, um lugar mesmo especial.” Vítor é suspeito porque é da casa, mas não está a exagerar: este é um caso raro em que a realidade esmaga a imaginação.

Deixamos a fajã pelo caminho que nos leva até à Fajã dos Cubres, onde um grupo de caminheiros brinda ao final de mais um dia nesta ilha de sonho. Nós vamos fazer o mesmo no sossego do lugar a que passámos a chamar “a nossa casa em São Jorge”, a encantadora Quinta de São Pedro.

Como o que é bom passa a correr, na manhã seguinte estamos de volta ao Faial, onde esta aventura começou. Ricardo fica. Vai à procura da sua baleia e é tão certo que a vai achar como é certo que havemos de regressar. Sabia que os açorianos dizem que é preciso uma vida inteira para conhecer os Açores e que, mesmo assim, pode não chegar?

in upmagazine-tap.com

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